A cena não é inédita. Acontece todos os dias na maioria dos consultórios e clínicas médicas. Quem nunca torceu o nariz para aqueles homens e mulheres, sempre trazendo uma mala preta, que chegam às salas de espera pedindo para ver os médicos? Quem aguarda atendimento geralmente se irrita em ter de ceder a vez para o tal profissional.
Eu mesmo já vivi isso incontáveis vezes. Poucos sabem, mas durante 7 anos de minha vida trabalhei como propagandista farmacêutico, ou como muitos preferem, representante (viajante). Lembro bem da correria e de tantos olhares que me fulminaram toda vez que um médico me chamava antes de um paciente. Houve uma oportunidade em que, apesar de chamado, preferi não entrar depois de um auê do paciente que seria o próximo a ser atendido. O homem esperneou, gritou, não admitiu que eu atendesse ao médico por 5 minutos, tempo de que eu precisaria para fazer o meu trabalho. Ele entrou, eu continuei esperando, mas não por muito tempo. Logo depois o médico dele pediu que eu entrasse, pois justamente o remédio que seria prescrito era o que eu trazia e que o paciente não teria condições de comprar por ser de alto custo. O paciente recebeu a amostra e pediu desculpas e tenho certeza que, a partir daí, passou a compreender a importância do nosso trabalho, por ter sido, ele próprio, beneficiado.
Esse tipo de constrangimento é rotina na vida do propagandista, que comemora hoje sua profissão. Lidar com situações como essa é só uma das coisas que se aprende nessa carreira.
Defendo que, para não cometer injustiças, devemos conhecer bem o valor de cada trabalho. Infelizmente, a importância do propagandista nem sempre é explícita.
O representante farmacêutico trabalha com o objetivo de vender remédio, mas não apenas isso. Seu papel é ser portador de informações, a ponte entre a indústria que pesquisa e desenvolve as fórmulas e o médico que a prescreve.
São poucos os que sabem, mas nesta profissão a rotina envolve além do corre-corre de um consultório ao outro, muito estudo. São dezenas de manuais instrutivos que o profissional precisa dominar. O propagandista é submetido a treinamentos constantes, em média 200 horas por ano em congressos e preparações. A indústria gasta milhões em formação de seu efetivo de representantes e cobra por esse investimento. Todo profissional passa por avaliação de 4 em 4 meses (nas chamadas reuniões) e se tem nota inferior a 8,5, corre o sério risco de perder o emprego.
Tudo isso para vender remédio? – o leitor pode perguntar.
Não, caro leitor, o apuro é para ser um representante à altura dos avanços conquistados por cientistas em todo mundo, ao longo de muito tempo. Neste segmento, tudo é muito seguro e controlado. É preciso atender às inúmeras exigências enquanto se evolui. As drogas passam por pesquisas muito amplas e, assim, tratamentos tornam-se cada dia mais efetivos, sujeitos a menos efeitos colaterais. E são os propagandistas principalmente que anunciam os avanços, são os representantes que fazem chegar ao mais remoto rincão deste País todas as informações para os médicos. Devem estar preparados para responder às perguntas e sanar as dúvidas dos profissionais da saúde.
Recordo-me muito bem de quando o Viagra começou a ser divulgado. As pílulas azuis resultaram de pesquisa para anti-hipertensivos e quando seus efeitos foram comprovados para a disfunção erétil, a maioria dos médicos tomou conhecimento pela imprensa, de modo muito superficial. O representante deste fármaco era o mais esperado nos consultórios! Era dele que os médicos queriam ouvir a forma de ação do remédio, a descrição da fórmula, os efeitos e resultados dos testes e exames e muitos só começaram a receitar depois de devidamente munidos pelo propagandista. (Boa parte da ansiedade era mesmo pelas amostras grátis).
Esse é só um exemplo do papel dessa profissão. Quero terminar falando em outro aspecto, que acaba sendo um reflexo da estratégia de marketing da indústria. Num país em que a desigualdade social é muito forte e em que as políticas públicas de saúde ainda apresentam grandes deficiências, o propagandista acaba beneficiando diretamente aqueles pacientes que não tem condições de acesso ao tratamento. O celular de um representante toca o dia inteiro, chamado por médicos que pedem amostras grátis para quem não tem dinheiro para pagar por ele. É um trabalho de marketing cuja estratégia pode ter um desfecho social, levando conforto, alívio e cura.
Por isso, caro leitor, caso você seja precedido por um propagandista em uma consulta, seja um pouco mais paciente. Ele pode estar apresentando a seu médico um remédio que lhe seja benéfico.
E para você, propagandista, os parabéns e o abraço forte deste colega.
Agenor Mariano é vereador em Goiânia (www.blogdoagenormariano.com)